
... ensinando a dar novos passos para seguir em frente sempre


Presentes e datas comemorativas são bobagens. Era o que você costumava dizer, envolto até em um certo desdém. Completava só depois: amor e carinho se entregam ao outro todos os dias. Era isso ou algo parecido. As cinco décadas te alcançam e a minha memória é que tropeça. Eu, menos da metade de você.






Tenho tido tanta urgência de mergulhar na vida que esqueço o tubo de oxigênio. Talvez por isso meu bisavô escafandrista venha aparecendo nos meus sonhos. Como se quisesse dizer que o ar uma hora acaba - e é preciso recuar. Não conheci esse homem que, ainda muito jovem, meteu-se num navio na Polônia e foi viver oceano adentro. Oceano a fundo. Tivesse oportunidade, teria feito muitas perguntas a ele (que disso eu entendo). Ousaria saber se no silêncio de todas as coisas a gente escuta melhor. Se ele tinha mais medo do perigo lá embaixo ou do tédio em terra firme. Se era possível ter bravura sem deixar de ser doce. Esse homem de olhos claros e pose de galã sorri pra mim dos retratos em preto e branco. Eternos nos corredores da minha avó, sua filha. É ela quem me conta que esse Teodor doido por desbravar as profundezas do mundo atracou no Brasil de Conceição. O rapaz, fora d'água, perdeu o fôlego pela soteropolitana. Por ter perdido o fôlego, lançou a âncora e por ali ficou. Deixou a noiva canadense a ver navios. Deixou os pais e os irmãos a olhar pra sempre o horizonte quando a saudade apertasse. Avisou por carta, em palavras doloridas e congestionadas de consoantes, que havia se apaixonado. E isso era mais que suficiente. Teodor e Conceição se amaram por um bom tempo sem falar a mesma língua: entendiam o que o outro queria dizer. Juntos, tiveram três filhos. E netos e bisnetos (geração na qual me incluo). Hoje, gostaria ainda de lhe pedir emprestados o escafandro e o pé de pato. Pra mergulhar mais fundo, pra decorar cada uma das formas e das cores, apesar dos riscos. Quando o ar tiver acabado e me deixado zonza, talvez eu perceba a importância de voltar à superfície.

incertezas sobre quase tudo