segunda-feira, 8 de março de 2010

Epitáfio: la vie en rose

No último leito do corredor, uma voz rouca canta Edith Piaf. Porque as cortinas estão fechadas, o olhar melancólico do paciente deitado dói ainda mais em mim. Os médicos e residentes ao redor da cama tem jalecos, experiência e técnica para se proteger. Trouxe apenas meu gravador e uma incrível incapacidade de lidar com a morte. O estado de Seu Roger é terminal: o tumor avançou os limites da bexiga e lhe assaltou o corpo todo. Agora alcança também o latifúndio da memória desse francês de 89 anos, que precisa assobiar alguns trechos perdidos de "La Vie en Rose". É apenas uma rotineira visita de sexta-feira, em que todos da equipe acompanham e discutem caso a caso juntos. Mas ele logo avisa que esta é, sim, uma despedida. A chefe da enfermaria de cuidados paliativos ouve em silêncio e abre um sorriso cúmplice. Então ele havia sentido o sopro final de vida. "Obrigado por não me deixar sofrer, por cuidar de mim o tempo todo", diz, com as mãos repousadas nas dela. Custo a acreditar que aquele homem sereno e sem dor está morrendo - mas choro muito por ele, engolindo soluços. (O que haveria entre as duas pontas de sua trajetória? Que histórias teria ele para me contar se tivessemos sido apresentados mais distantes de seu fim? Soube apenas que era um gentleman muito culto, adorava cerveja Baden Baden, tinha duas filhas gêmeas e conseguira escapar de soldados nazistas quando criança). Antes de deixar o quarto, esfrego meu rosto na manga do casaco e ofereço um beijo a Seu Roger. Ele confessa: "Estou feliz. Vou morrer com ela nos braços". Juro que, pertinho daqueles olhos azuis, não foi a morte que fez sentido. Mas o sentido da vida.

Dois dias depois, liguei para a médica-chefe para saber dos pacientes. Queria marcar uma foto com Seu Roger para uma matéria que estou escrevendo. Apesar de todas as evidências, a gente tende a ignorar a morte. "Tenho más notícias, querida. Ele faleceu no dia da nossa visita, poucas horas depois", disse.

"La Vie en Rose" (A Vida Cor de Rosa), Edith Piaf.



"Uma grande felicidade que toma seu lugar
Os aborrecimentos e as tristezas se apagam
Feliz, feliz até morrer"

3 comentários:

meio tango, meio samba disse...

Oi Ná..
Só vi seu comentário no meu blog agora.. não entro muito lá.
Dei uma boa olhada aqui no seu também e gostei muito de como vc escreve...

Espero que esteja curtindo a viagem.

Colei aqui um link de um artigo que escrevi. Já que você é jornalista, rola dar uma olhada e me falar o que você acha? Rsrsrs..

http://blogs.abril.com.br/blogdojj/2009/02/artigo-confissoes-uma-nova-publicitaria-ou-publicitaria-nova.html

tks, beijo
Flo

Camilo Vannuchi disse...

"Des yeux qui font baiser les miens / Un rire qui se perd sur sa bouche..."

Nath, querida, ainda bem que existem blogs. Assim eu posso conhecer - mesmo que com algum atraso - pelo menos uma das muitas histórias que você deve ter colhido em sua mais recente jornada de repórter. Preferia escutá-la de você, é claro.

Uma das bugigangas que trouxe de Paris foi uma caixinha de música pequena, redonda, rodeada por fotos da torre Eiffel em diferentes etapas da construção. Quando giramos a manivelinha, brota de dentro dela a melodia singela de "La vie en rose".

"Il est entré dans mon coeur / une part de bonheur / dont je connais la cause."

J'adore!
;-)

Camis

Amanda Amorim disse...

E um outro jeitinho de la vie en rose:

http://www.youtube.com/watch?v=vsMIuuV05uc&playnext_from=TL&videos=ZWdhGNqhPSM