terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A vida que ninguém vê


Muitos olhares alcançam a mulher da esquina sem enxergar a via extensa de sua vida, as ruas paralelas, os becos sem saída. O que escondem essas silhuetas anônimas tão expostas à libido, à piedade, ao repúdio?

Coloco abaixo meu capítulo preferido de "Além da Esquina: histórias de mulheres que se prostituem em São Paulo", livro-reportagem para o Tcc de jornalismo em parceria com meu namorado, Felipe Oda.



Capítulo: Linette


- Amor, tô cansada de lavar, passar, cozinhar, fazer faxina, costurar. Nunca te vejo. Vamos sair pra namorar?
- Já se olhou no espelho? Você está velha, nem um cachorro te quer! Se não está feliz, vá embora..., respondeu o marido.


O episódio deu linha para que Ana, 39 anos, começasse a costurar a mulher que não era. Pegou o tecido de sua vida e riscou um novo formato. Com uma agulha afiada de mágoa, a dona de casa da periferia da zona leste juntou a necessidade financeira à decepção amorosa. Lá estava o figurino pronto. Ana vestiu-se de Linette. E percebeu que o caimento ficara melhor do que havia planejado. Quase como uma segunda pele. Pudera. Linette, a garota de programa, lhe devolveu o prazer de se sentir desejada e rendeu um dinheiro que a costureira jamais imaginara. Logo ela: conservadora, recatada mãe de quatro filhos, casada pela segunda vez há 22 anos com um açougueiro. Mas ser a outra era tentação demais. “Em 2005, abri os classificados atrás de emprego como doméstica. Vi um anúncio para trabalhar em uma casa noturna. Duzentos reais por dia. Achei que era para garçonete e me candidatei.” Quando se deu conta de que o que se servia ali era algo muito mais íntimo, a destruída auto-estima de Ana falou mais alto. Imagina, “mulher que nem cachorro queria” seria útil apenas para cuidar das meninas, pensou.


A zona não seria tão exigente quanto o marido. No primeiro dia foram oito programas. O recorde, ela jura, foi de vinte e sete clientes em vinte e quatro horas. Então, não quis mais voltar para casa. Deixou os filhos com o marido - porque ao menos um bom pai ele era – e mandava o dinheiro do feijão. Feito isso, pendurou-se num cabide por dois anos: queria só andar de Linette. Morou em boates, privês e depois alugou um flat. Deslumbrou-se com a liberdade e com o lucro rápido. Até que seu celular tocou. A realidade de Ana estava chamando. “Que é? Enquanto eu cuidava das crianças, você falava que era mamão com açúcar!”. Marcos, enlouquecido com as tarefas cotidianas, pedia que a esposa voltasse. Mas sabia que ela não voltaria sozinha. Antes de sair de casa, a costureira havia sido flagrada ao telefone negociando o valor e o local de um atendimento. O homem teria que pisar no orgulho para dividir o teto com Ana e Linette. As duas coexistiam e não seria mais possível separá-las.


Para aceitar esta condição, Marcos tirou suas vantagens. “Ele começou a fazer contas e, por achar que eu ganhava dinheiro fácil, não queria trabalhar”. Sem querer, a atitude do marido contribuiu para o sucesso profissional de Linette. Se ele fazia corpo mole, ela trabalhava duro. Ficou tão conhecida e requisitada por seus atributos físicos que foi convidada pela produtora pornográfica Explícita a lançar seu primeiro longa-metragem: “Um Metro e Meio de Bunda”. Estima-se que cerca de mil cópias tenham sido vendidas – fora os números da pirataria. A performance com 1m26 de preferência nacional ainda pôde ser conferida em outras 22 fitas estrangeiras. A costureira ingressou em uma indústria que movimenta R$ 850 milhões anuais no Brasil (contra R$ 10 bilhões do mercado norte-americano) e produz cerca de mil vídeos por ano, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico e Sensual.


Em um filme pornô, Linette ganha R$ 1.500 por uma hora em cena. Ana só atingiria essa quantia se ficasse sobre a máquina de costura dez horas diárias durante três meses. Tempo suficiente para produzir 18.600 camisetas, pelas quais recebe oito centavos por unidade. Cada camiseta é vendida nas ruas do Brás e Bom Retiro a, pelo menos, dez reais. “Perguntam se acho digno o que eu faço. Eu acho! Porque é terrível acordar quatro da manhã, pôr um ovo na marmita, ficar o dia inteiro numa firma pra ganhar R$ 300. Qual é mais fácil? Raciocina, pára pra pensar. Não tô falando que ser garota de programa é lindo, mas não estou fazendo nada criminoso”.


O que está fora dos parâmetros éticos de Ana é carregar um filho debaixo do braço para pedir esmola no semáforo. Ela acredita ser uma mãe melhor se prostituindo e camuflando os sacrifícios que enfrenta. A negra de 1m50 de altura e trajes tão discretos que a fazem parecer uma secretária mantém-se nos bastidores, atrás das cortinas. Enquanto isso, Linette experimenta o glamour dos holofotes.
- Ô, Ana... Um amigo meu lá do açougue disse que viu sua bunda no DVD.
- Ah, é? Fala pra ele que são cem reais a hora. E pra você, que dorme toda noite na cama comigo, são seiscentos.
- Você tá maluca!
- Se você não quiser, a gente se separa, não tem problema. Da zona eu não saio. Você que é maluco: tinha uma mulher que fazia tudo em casa e achou que isso não valia nada. Agora eu sou linda, tenho até grana pra ir ao cabeleireiro.


Ana estava vingada. Diz-se satisfeita porque Marcos a considerava uma broaca e agora tem ciúmes, fica bravo quando ela sai de Linette. “Não fiz nada que ele não merecesse”. A ex-costureira poderia ter sua independência e se desvencilhar do casamento falido, mas não o faz. “Ué, não é interessante. Não tenho para onde ir. Mulher pobre fica com o homem por causa de tijolos. Duro dizer isso...” Esse é o dilema de Ana: ela paga as contas, mas a última palavra vem do dono da casa. Normalmente, Marcos se limita a dizer “Onde você enfiou o dinheiro? Sei que ganhou mais”. Ganhou mesmo. E guardou para o futuro. Ana se previne por ter certeza que daqui a três anos Linette não consegue nem para o sal. “As garotas de programa têm um defeito: esquecem que vão envelhecer e essa grana toda vai fazer falta.” Da extrema pobreza que viveu na infância, quer distância. Para ela e para os filhos. Luta para que eles não precisem entrar no armário, como ela precisou quando criança, para se proteger da chuva que alagava o barraco na Vila Ema e fazia força para carregá-lo. E que nunca mais matem a fome com um pão seco doado pelo vizinho.


Naquela época da vida de Ana, a carência não era só de comida e de um lar estruturado. Chorou mais pelo descaso da mãe faxineira, que não a aceitava por ser a única negra entre os três irmãos. “Ela era branca e não gostava de preto. Era racista, me batia. Foi muito cruel comigo. Acho que se revoltou por ter engravidado aos catorze anos e descontou esse sofrimento em mim.” O pai não pôde defendê-la porque saiu de casa para morar com outro homem. A menina não demoraria a sair também. Aos dezesseis, foi obrigada a arrumar as malas. A mãe cismou que Ana havia se perdido com o namorado. “Eu perdôo todas as maldades dela. Era pura ignorância.” Virgem e sem meios para seu sustento, teve incentivo das cinco primas prostitutas, que a levaram para fazer strip nas casas noturnas. “Como eu era de menor, não podia fazer programa.” Linette ainda não estava nos planos de Ana. Pouco tempo mais tarde, ela casou apaixonada. Separou-se quatro anos depois por não agüentar o envolvimento do parceiro com as drogas.
Engravidou duas vezes no primeiro casamento. A primogênita já está noiva com 21 anos. Lara, dois anos mais nova, sumiu às cinco da tarde de um dia de 1996 que Ana não quer lembrar. Ela foi à delegacia quando percebeu que a filha não estava por perto, mas o “doutor” informou que só poderia ajudá-la após 24h do desaparecimento. Finalmente encontraram a menina. Morta em uma caixa de papelão. Estrangulada e estuprada aos sete anos. O inquérito foi arquivado. “Tinha uma vida feliz e nem sabia. Tive que juntar os cacos e tentar recomeçar.”


Marcos, o atual marido, representou a esperança de uma nova vida. Ele assumiu a filha de Ana e providenciou mais duas crianças: uma garota e um garoto, hoje com 12 e 9 anos. O segundo casamento, segundo ela, foi perdendo o encanto para a rotina. No início, a dona de casa fã da dupla sertaneja Bruno e Marrone cantarolava baixinho a música “Deixa”: Já não consigo entender, se quem amou pra valer diz que agora tanto faz! Que já não me quer mais... Agora parece mais conformada. “Quando ele tá a fim, lembra que eu existo. Dá aquele tapinha pra me chamar e depois vira de costas. Mas isso é vida de marido e mulher”.
Prazer, só fora de casa e eventualmente, quando Linette acaba se deixando envolver por um cliente. Nesses casos, diz, são dez minutos de ilusão. “Talvez eu nunca mais o veja. Não posso ir para casa e lembrar dele no dia seguinte”. Ana costurou firme o coração de Linette. E também lhe transferiu limites morais. Por dinheiro vale freqüentar uma casa de swing, atender mulheres e pedidos bizarros – como um cliente que se excita com o álbum de casamento dos pais. Mas gostar disso? De jeito nenhum!


- O cara leva a esposa para vê-la transando com vinte homens de uma vez. Acho estranho demais. Se existe inferno é aquilo lá! Também fico chocada quando um cara fala ‘me faça de privada’. E a primeira vez com mulher? Deus do Céu! Fiz igual vejo os homens fazerem. Credo, eu chegava a arrepiar de nojo. Topei porque mulher paga dobrado.
- Então é mais fácil ser atriz pornô?, perguntamos.
- Claro que não! O programa é rápido e você faz o que quer. É você quem controla o cliente e faz ele gozar logo. Não precisa fazer caras e bocas. A atriz pornô tem uma performance pra gravar. A rotina é bem mais intensa porque os atores são “grandes”, né? E eles não se envolvem, é como um boneco sendo manuseado.


Apesar de considerar o programa mais fácil, Linette afirma que a garota deve se impor para ser respeitada. Quanto mais barato, mais o cliente abusa: quer aproveitar até o último centavo. “A mulher vale o que ela cobra”. Duzentos reais é o preço pela companhia dela. Pelo menos é o que nos diz. No entanto, uma consulta ao GPGuia.Net (fórum criado por clientes para resenhar as prostitutas) indica o valor de cinqüenta. Não importa. Para Linette, se o homem paga é porque a quer muito. “Tem mulher que dá pra Deus e o mundo. É galinha do mesmo jeito que a puta. Pior: não está cobrando. Pra mim ela é burra, amiga. Ela vai embora de ônibus e eu, de táxi”.
O dinheiro que Linette traz para Ana significa tanto que enquanto o celular tocar, ela continuará se prostituindo e correndo os riscos da vida dupla. No final de 2007, seus cunhados compraram um DVD pirata de Linette. Reconheceram Ana, de fio dental e cinta-liga. Ela negou tudo. “Foi o maior bafão. Minha sogra disse que queria morrer preta no inferno se aquela não era eu com um negão dos EUA.” Insistiram até Ana admitir. As filhas, que viram a capa do filme, não a condenaram: “Mãe, a senhora é maravilhosa. Não está faltando nada pra gente”. Já o marido se fez de vítima para a família. Alegou que não sabia de nada e que há tempos dormiam em camas separadas.


Apenas a face atriz pornô de Linette havia sido desmascarada. Mesmo assim, Ana se arrepende apenas por não ter começado a se prostituir antes. “Sou mais feliz hoje. Se soubesse que minha vida seria isso, nunca teria saído da boate. Seria garota de programa dos dezesseis aos cinqüenta. Construí um castelo de areia que desmoronou. Achei que a felicidade era o casamento, um lar e uma família.” De tudo aquilo que a costureira modelou para seu destino, sobraram apenas retalhos. Linette é o avesso da colcha de retalhos de Ana. Está escondida do lado de dentro, mas faz parte do mesmo pano, divide a existência com a mesma mulher. Quando Ana percebeu a linha que as unia, foi Linette quem pegou toda culpa e angústia de ambas e deu o ponto final.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

a estação que eu não vi
















Nesta última sexta, enquanto eu voltava do trabalho para casa, ele encontraria os amigos num bar. Raja, sua fiel companheira, o guiaria até a Rua Augusta.

André tem 24 anos, é casado, formado em ciências sociais, mestrando em ciências políticas pela USP. E cego. Não fosse essa última condição, passaria invisível por mim na catraca do metrô Vila Madalena.

Se ele pudesse me ver, talvez eu não o tivesse seguido pela escada rolante, pela plataforma, pelo vagão. Sentei ao lado dele e não resisti:

- Morde?, perguntei, já esticando a mão no focinho da labradora chocolate.
- Não. Mas você não deve acariciar um cão-guia quando ele está a trabalho.
- Não sabia...
- Tudo bem. É que eles não podem se distrair.

Raja, 2 anos e 7 meses, precisou de um mês de treinamento para ser os olhos de André. Hoje, acompanha todos os seus passos. Ficamos ali, conversando, e esqueci das estações. Sequer ouvi o alarme das portas e o anúncio do funcionário do metrô.

- A estação que passamos agora foi a Consolação?, ele quis saber.
- Não sei, André. Eu não vi.

Ele achou engraçado.

- Não VIU? Como você diz isso para um cego?

Estava certo: havíamos chegado na Trianon-Masp.
E eu não vi porque, de fato, ver parecia quase insignificante diante da superação dele.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

De nariz vermelho


O curioso é que eu não lembro delas. Da foto, da menina.
Por isso fiquei surpresa ao encontrá-las, assim que girei a chave, sobre a mesa de casa.
Havia pedido a minha mãe que separasse fotografias de quando eu era criança. Preciso repassá-las à comissão de formatura, que irá colocá-las num telão durante a festa.
Então as duas estavam lá, fazendo graça com a minha memória fraca.
Diante da "palhacice" da situação, do batom vermelho borrado, dos olhinhos apertados de alegria, das xuquinhas tortas (alinhadas à franjinha, torta)... o stress do trabalho ficou do outro lado da porta.
Olhar para si mesmo, de vez em quando, pode ser uma experiência divertida.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

gota d'água

gota a gota, a me irritar enquanto escrevo, enquanto janto, enquanto deito pra ver tv, enquanto tento não pensar em nada. gota e mais outra gota. abstraio. só até o barulho gotejar no meu ouvido novamente. quero que essa marcação do tempo pare. já abandonei o relógio por isso. mas... nada. aperto o registro, fecho a porta, aumento o som. e ainda sinto que aquela água continua se esvaindo fora do meu controle. estou cansada. comprei uma revista há uma semana e só tive tempo de analisar a capa. duas bitucas de cigarro jogadas por um vizinho na minha varanda já estão quase camufladas no piso. minha planta morreu de sede. e há tanta gota desperdiçada.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Dores desnecessárias


"Não, Nathalia. Essa dor não é normal. Ela é sinal de que você ultrapassou seus limites", disse, colocando o dedo na ferida sem cerimônias. Saí da yoga com um calombo no ombro direito e uma fisgada atrás da coxa esquerda. Mas aquela resposta é que ficou latejando em mim o dia inteiro. Eu poderia jurar, na melhor das intenções, que era preciso sentir dor nos exercícios para alcançar uma espécie de patamar do além que me libertaria dela. Ou, no mínimo, pra que eu tivesse certeza (física) do meu esforço pelo perfeccionismo. E, não, eu não alcancei o movimento perfeito nem entrei em transe depois de intenso sacrifício. Só pensava quantos comprimidos de dorflex seriam necessários para que eu voltasse a andar sem franzir a testa. Fui conversar com a professora, crente que ela me recomendaria algum outro chá relaxante e diria que isso faz parte do processo de aprendizagem. E ela me vem com essa. Acrescenta, aliás: "seus limites precisam ser respeitados. cada um tem seu tempo. talvez essa dor signifique que você se cobra demais. e que na ânsia de se entregar por inteiro, você não percebe até onde pode ir sem se machucar". Tomei nota. Quando será que aprendo?