Silvia Valentini não é cega. Convive apenas com a miopia, sem saber precisar quantos são os graus que desembaçam qualquer imagem à distância: "deve fazer uns seis anos que não troco estes óculos". Queria ter dito a essa artista plástica que abandonasse o par de lentes pendurados sobre o nariz. Parecem lhe servir apenas como acessório, tamanha a clareza da sua visão de mundo e seu foco no outro. Silvia é idealizadora do Boletim Ponto a Ponto, um periódico mensal que compila reportagens de jornais e revistas transcritos em braille. O calhamaço de páginas brancas e totalmente pontilhadas leva conhecimento a deficientes visuais e surdocegos, que tem pouquíssimo material atualizado disponível para leitura. Assim, milhares de pessoas têm compreendido melhor o que acontece no mundo que também lhes pertence. Descobrem, encantados, o que é o tal do pré-sal, como funciona um vulcão ou que forma possui um carrapato. Escrevi sobre o projeto na edição de setembro da revista Época SP, em breve nas bancas. Foi através dela que conheci Sandra Taioli Cassares, outra mulher de abraçar a alma.

Era quinta-feira de feriado quando toquei a campainha do apartamento dessa assistente social aposentada. "Oi, querida, pode entrar", convidou, estendendo a mão e me puxando para um abraço. Não podia ter me guiado melhor naquela situação. Muitas vezes, ajo feito quem tateia no escuro diante de portadores de alguma deficiência: espero ela me tocar ou não? vou na frente ou sigo?
Percebi que Sandra conversava comigo bem perto, como se quisesse enxergar com outros sentidos a minha altura, o jeito como eu gesticulava, a minha expressão de jovem repórter. Não tenho ideia se percebeu o quanto me surpreendi com uma bobagem: a casa era absolutamente arrumadinha, normal, com tudo combinando. Sofás, mesinha de centro, televisão, samambaia pendurada sobre a janela. Através dela, vi o céu da Mooca feito um tapete azul. "Obrigada por me receberem nessa manhã de feriado ensolarado", comentei. "Está sol, é? Que beleza!", respondeu o marido, me cumprimentando. A luz refletida nas paredes era só o breu costumeiro para o simpático casal. O que eles vêem é uma sensação de calor. Fechei os olhos para marcar a minha estupidez distraída.
Mas eles sequer ligaram. Andavam de um lado para outro com passos precisos, como se calculassem mentalmente a metragem da poltrona para o corredor. Talvez vejam alguns vultos e silhuetas, pensei. Nada. Sandra nasceu cega; Ronaldo ficou aos vinte anos. Ela, que foi alfabetizada em braille, surgiu com uma Reglete (régua com cavidades que formam palavras ao serem perfuradas por uma ponteira de aço). Ponto por ponto, numa habilidade invejável, escreveu meu nome completo. E tudo o que eu consegui ver foram montinhos em relevo, que não me diziam absolutamente nada, mas me encantaram os dedos. A professora segurou minha mão e tentou ensinar o beabá.
"Você pode buscar um Boletim e ler pra mim?", abusei. Afundei mais de uma hora naquele sofá com estampas irmãs das que moravam na sala da minha bisavó. Ao meu lado, com as páginas no colo, Sandra empunhava o indicador e lia as matérias que eu havia lido semanas antes no Estadão, na Veja... E que se transformaram em novidade naquelas formas miúdas. No momento em que ouvi o outro me contar o que eu não podia decifrar sozinha. Sem perder o hábito acadêmico, ela me pediu para encontrar o número de uma página qualquer. Explicou o formato dele em braille, mas logo desisti do desafio. E imaginei os dois folheando em uma enorme banca de jornais e revistas: sem um tradutor vidente por perto, as palavras e as imagens são inalcançáveis.
"Preciso ir embora!", me despedi, na esperança de que me botassem em algum canto só para observar suas rotinas. Tive vergonha de explicar que demoro para conceber certas superações. Ronaldo saltou da porta ao elevador e, certeiro, apertou o botão para mim. Disfarcei, mas não resisti a uma última olhada nos olhos dele. "Não é possível, Deus. Esse homem deve estar me vendo". Do jeito convencional, não estava, não. Mas tenho cá minhas desconfianças: como as aparências não lhes dizem nada, eles devem enxergar além.